O terreno do Lote 42 tinha um armazém de velas — lona, mastros deitados e cheiro a
resina — e foi Vasco Marreiros quem o comprou, em 1994. Tinha passado onze anos a dirigir
a banca em salas do sul e queria a sua, com uma condição que repetia a quem lhe quisesse
ouvir: tinha de ser à beira de água, e a água tinha de ser uma doca. Dizia que uma marina
é a única vizinhança que se levanta cedo e se deita tarde, e que uma sala de jogo precisa
exactamente disso.
Escolheu a doca central por causa da luz. É o único lote da fila onde o sol da tarde entra
pelo pátio poente e sai pelo átrio, e onde os cascos brancos, ao meio-dia, devolvem a luz
toda de uma vez — o hotel foi desenhado à volta disso: o átrio ao centro, os quartos e o
jardim de um lado, a ala poente inteira do outro, com porta própria para o pátio. Nenhum
hóspede atravessa a sala para chegar a lado nenhum, e isso decidiu-se na planta, antes de
haver paredes.
Abrimos em 1996, quando a doca central ainda tinha metade dos pontões de hoje. O prédio é
o mesmo; mudámos a fachada duas vezes, os quartos três, e a sala passou de oito mesas para
dezasseis. A equipa da receção é que quase não mudou — o Sr. Almeida faz o turno da noite
desde o segundo Verão. Somos setenta e quatro quartos e não vamos ser mais: o lote acaba
onde acaba, e a casa que o Sr. Marreiros deixou em 2019 é para ficar do tamanho que tem.